Nossa homenagem a LIVIO RANGAN - ( in memorian )
Discurso de Livio Rangan publicado na Revista
Propaganda em 1976 : o ponto alto na festa do Prêmio
Colunistas como Publicitário do Ano
Escolhido, ou melhor, surpreendido, com o título de “ Publicitário
do Ano”, minha primeira reação psicológica foi: “ Será que
eu mereço? “ E a segunda, paradoxalmente, menos vaidosa por ser
mais profunda:” “ Deus do céu, e se eu merecer?” Porque
isso? Porque depois de meio século de domínio absoluto dos meios
de comunicação, quando a publicidade saiu do limbo da ingenuidade
e do amadorismo para se transformar numa instituição altamente
profissional densamente sofisticada e política e economicamente poderosa,
temos que encarar o fato, hoje mais visível do que nunca, de que nos
foi imposta uma espécie de má consciência, pois, a propaganda
tem inimigos altamente respeitáveis e tão poderosos quanto ela:
os filósofos da anti-propaganda.
Respeitáveis, sim. Por isso,
talvez eu tenha empregado erradamente a palavra inimigos: talvez sejam nossos
melhores amigos. É isso. Devemos incorporá-los, lendo-os com atenção,
assimilando com respeito as suas criticas, aceitando-os como auxiliares de nossa
autocrítica, que o prestígio e a força de nossa profissão
nos põe em risco de perder. Pois, só aceitando a certeza de que
nós, os publicitários, também podemos receber uma publicidade
desfavorável, estaremos em condições de estender as mãos
para um prêmio, sem a dúvida fatal: “ Deus do céu
, e se eu merecer?”
Assim, ao invés de admitirmos que a
Publicidade pode tudo, creio que o negócio é manter a cabeça
lúcida ao ponto de sempre nos perguntarmos: até onde podemos ir?
Até onde podemos ostentar a vaidade evidente de uma profissão
que intelectual e artística, social e econômica, pragmaticamente
se exerce com o evidente sentimento de sua importância e a fatuidade de
quem parece conter a todo o instante a vontade de repetir sobre si próprio: “ Pela
primeira vez na história , os gênios estão devidamente pagos!”?
Por outro lado, até onde devemos nos torturar com a idéia de que
estamos fazendo pouco pelo bem público e que não sabemos traçar
os limites do mal, ao aceitarmos indiscriminadamente qualquer produto, qualquer
instituição, qualquer facção transformando nossa
profissão numa busca destruidora da aquiescência total, funcionando
como uma espécie de lavagem cerebral que, mesmo não sendo política,
já é bastante perniciosa em seu uso meramente comercial?
Até onde,
ao invés de usar nossos poderosos veículos para sua suprema utilidade,
aquilo que nos daria uma definitiva paz de espírito, a certeza que escolhemos
esta atividade pelo principio filosófico de que “ o mérito,
também tem que ser divulgado”, “a virtude não pode
ficar esquecida entre quatro paredes”, “ a modéstia não
faz propaganda de si mesma e tem que ser divulgada à revelia”,
até onde, repito, em vez disso, estamos apenas servindo de intermediários
altamente especializados para um imenso estupro psicológico, o maior
da história?
Linconl, sem que sua intenção fosse essa,
nos deu um grande principio publicitário:
“pode-se enganar todas
as pessoas algum tempo, pode-se enganar algumas pessoas todo o tempo, mas não
se pode enganar todas as pessoas todo o tempo”. Nós os publicitários
, sabemos muito bem que não se pode dizer a todas as pessoas todo o tempo
que o preto é branco. Mas isso é pouco. Sem nenhuma utopia, sem
qualquer romantismo, devemos e podemos, também evitar faze-las crer que
o preto é cinza. O que temos é que descobrir as excelências,
as virtudes do preto, se é que elas existem. Pois, ao contrário
do que alguns podem crer, a publicidade é eficiente na proporção
em que não anuncia alhos por bugalhos, se é que algum dos senhores
jamais soube que diabos vem a ser bulgalhos. Eu vou ensinar aqui o que é bugalhos: é o
globo no olho, donde a expressão “ de olhos esbugalhados”.
Não fiquem humilhados não, eu fui ao dicionário.
O Dr.
Goebbels, o homem que verdadeiramente inventou o rádio, que, quando o
rádio entrou em todas as casas como um novo móvel descobriu que
esse móvel não era apenas decorativo mas uma arma de alta potência
que ele poderia utilizar contra o próprio usuário. Foi ele, Goebbels
que, denominando isso de poder de intrusão, e usando até seus
extremos limites nos deu, também, sem querer, a lição contrária
a de que a propaganda pode ser também, um poder de ilusão , quando
não usada devidamente, gerando seus próprios anticorpos capazes
de destruir aquilo mesmo que propaga, como fez com o nazismo.
No outro extremo
político, cônscio, também, do gigantesco poder de divulgação
da tecnologia do inicio do século, Lenine propunha e lançava o
seu TSF, a transmissão à distância, usando, pela primeira
vez na história, a possibilidade de influir extra-fronteiras com aquilo
que a teoria comunista passou a chamar de apostolado sem fio.
Mas antes desses
líderes e desses extremos terem se assenhoreado dos conceitos e meios
de propaganda, já existia, como modelo e como técnica, como argumento
e como ética, a maior e mais bela propaganda jamais feita, tanto em termos
de funcionabilidade como, mais importante, em termos de humanidade: o cristianismo.
Pois, nunca houve slogan mais feliz, mais eficaz e mais bem divulgado do que
o “ Amai-vos uns aos outros”, Nunca houve símbolo secreto
de comunicação “semi-ótico”, como se diz hoje,
mais eficiente do que o peixe desenhado nos pontos de encontros dos cristãos.
E nunca houve logotipo mais belo e apaixonante do que a Cruz.
E foi a Igreja,
ainda, que institucionalizou a Propaganda: antes dos Estados, dos sindicatos
e dos partidos políticos. O manual intitulado De Propaganda Fide foi,
durante muito tempo, um dos instrumentos mais poderosos da política do
Vaticano. De Propaganda Fide, isto é: a propagação da fé.
E por que não a fé da propagação?
Por que não
por a fé na propaganda, para que o Publicitário do Ano – do
ano que vem, sentindo que ser publicitário não é vender
a sua identidade ao demônio, mas , o legitimo encontro dela com o Bem
Público, entre as duas perguntas que me tumultuaram a alma ao receber
o prêmio deste ano, possa se perguntar apenas: “ Será que
eu mereço “.
Dedicamos esta discurso a todos os jovens que sonham com a carreira de publicitário.
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