Divagações sobre Jingles
Por José Scatena - Matéria
publicada Revista PN – Publicidade e Negócios Dezembro 1951
Comprovadamente, as gravações de propaganda comercial no radio
aumentam as vendas! Ficou igualmente provado, através de pesquisas de
opinião pública, que os “jingles” e os “spots” são
sempre lembrados, enquanto os textos avulsos dificilmente apresentam índices
de pesquisas que se fizeram para esse fim
Do mesmo modo que o leitor de jornais e revistas não pode deixar de tomar
conhecimento de uma mensagem de venda através de uma página inteira
de jornal ou revista, do mesmo modo o ouvinte de rádio não pode
deixar de “sentir” a mensagem de um bom “jingle”irradiado
em um intervalo exclusivo.
Quem se lembra, porém, de um anúncio classificado que aparece
em uma página juntamente com outros cem ou duzentos anúncios?
É difícil também ao ouvinte de rádio lembrar-se
de um texto avulso de 20 palavras que se mistura com 10 ou 20 outros!
Não quer isso dizer que seja totalmente ineficiente o texto de 20 palavras.
Sabemos que a força do texto está na sua repetição
em horários certos e determinados.mas, enquanto o “jingle” fica
vendendo sempre, mesmo depois de irradiado, pois a melodia fácil e agradável
fica na memória do ouvinte, o texto só vende no momento em que é ouvido,
sendo logo depois esquecido.
Há ainda quem discuta a sua eficiência comparativamente aos programas
de maia hora.
Não se pode negar grande audiência aos programas “ PRK30”, “Honra
ao Mérito”, “Edifício Balança Mas Não
Cai”.. “ O Crime não Compensa” e tantos outros, como
não se pode negar também grande audiência às novelas.
Esses programas cumprem naturalmente seus objetivos que é vender os produtos
anunciados nos mesmos.
Entretanto, vão ao ar uma vez por semana, exceto as novelas que são
irradiadas três vezes por semana.
Assim sendo, as mensagens de vendas se fazem ouvir na mesma proporção
em que são irradiados os programas.
Já com os “jingles” não acontece o mesmo. Sendo mensagens
de vendas completas, se repetem diariamente e em todos os horários, apanhando
os ouvintes de todas as classes, por um custo sempre mais baixo que os programas.
Sobre a questão do custo de irradiação do “jingle” ,
as emissoras, sentindo que os grandes anunciantes deixam de patrocinar programas
para somente programar “jingles”, tem aumentado consideravelmente
o preço destes últimos. Mesmo assim, grandes clientes com Gessy
Lever, Sidney Ross e outros, modificaram inteiramente a orientação
da publicidade em rádio, no sentido de abolir programas e irradiar somente “jingles”.
Sendo esses clientes os que maiores verbas de propaganda distribuem no Brasil
e preferindo eles os “jingles”, fica ai a resposta aqueles que ainda
discutem se o melhor em rádio e o programa ou o “jingle”.
Nossa opinião é de que o “jingle” realmente vende
mais que o programa, mesmo porque um grande programa só pode ir ao ar
pela onda de uma única emissora em razão do seu elevado custo,
ao passo que o “jingle” Gessy por exemplo, irradiado pela Nacional
o é também por mais 150 emissoras de todo o Brasil.
Entretanto, não somos contra o programa. Pelo contrario, achamos que
o anunciante deve dar alguma coisa em troca dos seus apelos para que o comprador
prefira os seus produtos. Temos a impressão de que todo anunciante que
mantém um bom programa, está sempre capitalizando simpatias para
o seu produto.
Ao passo que o anunciante que só programa “jingles” está apenas
tirando sem nada dar ao ouvinte.
Pode-se contra-argumentar que na imprensa acontece a mesma coisa, pois num
anúncio impresso o anunciante também não está dando
nada em troca para que os leitores leiam sua mensagem, salvo quando anuncia
uma jóia de 45 mil cruzeiros dentro de uma lata de goiabada, como faz
a Peixe presentemente.
Mas aqui estamos para falar da eficiência do “jingle” e essa
eficiência ninguém mais discute hoje em dia.Está consagrado.
Os grandes anunciantes o aprovam integralmente, sempre com resultados crescentes
de vendas.
Sua consagração se positivou também no campo político,
onde se tornou arma eleitoral de primeira grandeza. Alias, sôbre êsse
assunto, voltaremos a escrever um capítulo à parte.
Entretanto, como acontece na imprensa onde há bons e maus anúncios
, no rádio também há bons e maus “jingles”.
A diferença é que o bom anúncio e o bom “jingle” vendem,
ao passo que o mau anúncio ou o mau “jingle” dispendem a
mesma verba, ocupam o mesmo espaço e não alcançam seu objetivo.
“Jingle” não é apenas musiquinha bem feita. Deve encerrar
em 15 ou 30 segundos uma mensagem de venda clara, precisa e de efeito seguro.
Sua força repousa sem dúvida, na melodia, afim de que o ouvinte
a retenha com facilidade. Quem é que lendo esta letra, não lembra
logo sua melodia?
Coro
Blim,blom
Blim,blom
Cantora
O Pedrinho era fraquinho
Tomou Toddy todo dia
Coro
Blim, blom
Blim, blom
Cantora
Num instante engordou
Coro
Blim,blom
Blim,blom
Cantora
A vóvó já me dizia
Com grande sabedoria...
Coro
Quem toma Toddy todo dia
Tem saúde e energia!
Pode se notar nessa realização, o indispensável toque infantil
do seu produtor, razão do sucesso de muitos “jinlges” de
Gilberto Martins.
A criança constitui sempre um grande comprador, pela força que
exerce sobre os pais. Assim sendo, todo “jingle” que encerra uma
mensagem para criança tem que ter forçosamente esse toque infantil,
tanto na melodia como na letra, ficando a mensagem para o adulto, a cargo do
locutor.
Para cada caso, entretanto, há uma técnica diferente. O próprio
Gilberto Martins para o lançamento do novo sabonete Lever gravou para
a Lintas do Brasil S.A., um “jingle” que todos lembram ainda:
Cantora
Novíssimo!
Coro
Sabonete Lever!
Cantora
Perfumadissimo!
Coro
Sabone Lever!
Cantora
Deliciosissimo!
Coro
Sabonete Lever!
Uma questão sempre muito discutida na confecção do “jingle”diz
respeito ao aproveitamento de melodias já conhecidas. Somos de opinião
que a melodia deve ser sempre original. Encaixar a letra do Glostora na marchinha
Aurora, lembra mais o carnaval que passou e a letra da própria marchinha
do que a mensagem de venda que se quer fazer ouvir. Ainda da Sidney Ross, temos
exemplo do Talco Ross que na época do carnaval irradia pelo menos 30
vezes em cada emissora, esta monstruosidade:
Passa,passa, o Talco Ross
Quero ver passar.
Passa, passa, o Talco Ross
Para refrescar
Com firma americana que é, a Sidney Ross usa e abusa da técnica
de “irradiar até irritar” Somos de opinião que o ouvinte
recebe muito mais agradavelmente a melodia do Talco Gessy:
Cantora
Que perfume gostoso
É o Talco Gessy
Trio
Gessy...Gessy... Gessy...
Cantora
E o bebê satisfeito
Com Talco Gessy
Trio
Sorri, sorri
Com oTalco Gessy
Alem da melodia embaladorae agradável, repete mais vezes o nome do produto,
alias, outra técnica que deve ser observada na confecção
de um “jingle”.
Sobre este último ponto, Geraldo Mendonça elaborou há dois
anos atrás um belíssimo “jingle” para o SaboneteGessy:
Trio
Gessy,Gessy,Gessy,Gessy,Gessy
Cantor
Canta a cigarra no verão
Trio
Gessy,Gessy,Gessy,Gessy,Gessy
Cantor
Caem as folhas sêcas pelo chão
Trio
Gessy,Gessy,Gessy,Gessy,Gessy
Acontece que ficou muito rebuscado, tornando-se dificil ao ouvinte guardar
a melodia e a letra. Faltou simplicidade, técnica de que o nosso amigo
Gilberto Martins é mestre e nos demonstra nos “jingles” que
a Gessy irradia presentemente.
Conjunto
Para seu sorriso embelezar
Trio
Gessy!
Conjunto
Para sua boca perfumar
Trio
Creme Dental Gessy !
Conjunto
Dê aos seus dentes
Trio
Gessy!
Conjunto
Proteção total
Trio
Gessy!
Conjunto
Ganhe um sorriso divinal
Trio
Com Gessy
Da inobservância dessas pequenas regras é que surge o mau “jingle” que
paga a mesma coisa que um bom,mas que resulta em campanhas negativas de vendas.
Em virtude do elevado custo da irradiação, a tendência ultimamente é elaborar “jingles” de
15”. Com verba destinada a 10 “jingles” diários de
30”, pode-se irradiar 20 de 15” o que é sempre mais vantajoso,
pois o radio vende pela repetição.
Como exemplo de um magnífico “jingle” de 15”, temos
o do Óleo Rico:
Cantora 1
Óleo Rico na mayonaise
Cantora 2
Óleo Rico no peixe frito
Locutor
Nas saladas...
Cantora 2
Nas frituras
Duo
Óleo Rico
Cantora 1
Bolos...
Locutor
Quitutes...
Cantora 2
Biscoitos...
Locutor
Salgadinhos
Duo
Tudo, tudo mais gostoso
Com Óleo Rico.
Outros exemplos felizes de “jingles” de 15” existem, mas vamos
parar por aqui.
Queremos afirmar mais uma vez que o “jingle” é hoje indispensável
para vender produtos populares no radio. Quem duvidar, pergunte aos fabricantes
de sabonete, pasta de dentes,sabão,produtos farmacêuticos, comestíveis
em conserva,refrigerantes,produtos de beleza, etc.etc.
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